A Origem da Gravura de Arte em Goiás e seus Desdobramentos | de Edna Goya

Introdução

O desenvolvimento das artes plásticas em Goiás, assim como o desenvolvimento da gravura, nasce estimulado pela nova condição do estado, que busca transferir a capital – cidade de Goiás – para Goiânia, como forma de modernizar-se para inserir-se política, social, econômica e culturalmente no cenário nacional.

Desde a decadência da mineração do ouro e das pedras preciosas, quando o estado e a antiga capital entraram em declínio, os amplos setores da produção cogitavam da mudança do eixo político-administrativo da cidade de Goiás para um lugar estrategicamente melhor situado, como forma de promover o desenvolvimento regional e integrar o estado no contexto político, econômico e sociocultural dos centros mais avançados do país.

A transferência da capital, oficializada em 23 de março de 1937, significou não apenas o deslocamento do eixo político-administrativo do estado, mas também uma “estratégia de poder”. (CAMPOS, apud CHAUL, 1988, p. 15). Essa transferência veio propiciar a realização de outros benefícios, entre eles, ao longo dos anos, a constituição de uma nova configuração humana e geográfica nessa parte do território brasileiro e a criação, assim, das precondições ao revigoramento da região, surto de desenvolvimento socioeconômico que embalou o incremento das artes plásticas em Goiás e, no seu bojo, a origem da gravura como manifestação artística autônoma.

Oscar Sabino Júnior (Goiânia Global, p. 111), escritor e crítico goiano, considera que as tentativas culturais antes da nova capital estavam presas a um “saudosismo romântico”, que aboliam as possibilidades de originalidade e espontaneidade, isto porque estavam presas às técnicas e ao receituário tradicional, que marcaram movimentos e tendências anteriores. Os chamados “artistas”, segundo o autor, contentavam-se em alimentar o neorromantismo, acomodados às formas rígidas do passado.

A cultura e as artes, antes voltadas para as festividades religiosas, para a literatura e para as manifestações populares, foram adquirindo uma nova conotação. Se as artes plásticas, até então, foram marcadas pela participação isolada de José Joaquim da Veiga Valle (1806-1874), com a arte em estilo Barroco, considerada por Angotti “singular pelos aspectos formais e históricos, com imagens eruditas e aparentemente anacrônicas”, (SALGUEIRO, 1983, p. 25) e pela expressão, denominada pela critica local de neorromântica tardia, ou primitiva, mas que tende para o realismo, evidenciado na obra de Octo Outorino Marques (1915-1988)1, e de outros artistas, como Goiandira do Couto (1915), e Antônio Henrique Péclat (1913-1988), de tendência Clássica, ambos da cidade de Goiás, começaram a se modificar ao se sustentar paradigmas modernos. Esses artistas formam, na nova capital, a Sociedade PRÓ-ARTE de GOIÁS, responsável pelos primeiros movimentos artísticos na nova capital, fundada em 22 de outubro de 1945, e com as primeiras “escolinhas” (GOYA, p. 54) de arte, sendo que uma delas, pensada por Luis Augusto do Carmo Curado, em 1949/50, para atender o público infantil, dera origem ao ensino superior de arte. O projeto da escola é ampliado para agregar-se como faculdade à Universidade de Goiás, hoje Universidade Católica de Goiás/PUC, dando origem à primeira escola de ensino superior de arte – a Escola Goiana de Belas Artes (EGBA) 2.

Ainda, em 1945, começou a formar-se nessa associação uma consciência da necessidade de abertura também para as Letras e para as Artes, de forma a permitir certa autonomia tanto à literatura quanto às artes plásticas.

Também em 1945, forma-se outro grupo, chamado “Geração 45”, voltado para a literatura e composto por vários nomes dentre os quais, destacam-se José Décio Filho, José Godoy Garcia, Domingos Félix de Sousa, João Acióli e Bernardo Élis. Esse grupo marca o início do modernismo na literatura em Goiás, ao romper com a rotina acadêmica do passado, de tendência nacionalista.

Numa fase intermediária, surge o grupo “Os Quinze”, nascido sob o signo da competitividade. Era composto por dez membros, dentre os quais se destacava Jesus de Barros Boquady. Na época, era o único que denunciava tendência vanguardista (concretista).

Como fruto da efervescência da nova cidade e da necessidade de mudança é fundada, em 1952, a Escola Goiana de Belas Artes (EGBA), responsável pela introdução e institucionalização do ensino da gravura em Goiás. Em 1960, um grupo dissidente dessa escola funda o Instituto de Belas Artes de Goiás (IBAG), que, por ser gratuito, leva ao desaparecimento da primeira escola. Embora a EGBA tenha sido fundada em 1952, sua inauguração somente ocorreu no ano seguinte com o seu funcionamento autorizado a partir de maio, pelo Decreto n.º 32.258, de 23 de maio de 1953. Em sua inauguração, em 30 de março, fez-se uma grande exposição, aberta ao público, com a participação dos docentes, que objetivavam mostrar à sociedade goiana sua produção artística e cultural. À ocasião, o pintor Jordão de Oliveira, professor da Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), apresentou um levantamento panorâmico da arte brasileira, falando sobre seus movimentos e tendências. Situou a produção artística goiana nesse contexto e teceu comentários sobre a obra de Frei Nazareno Confaloni, Gustav Ritter e Luiz Curado, dentre outros nomes das artes em Goiás.

Em 1954, Goiânia sofre o maior impacto cultural de sua curta história, com a realização do I Congresso Brasileiro de Intelectuais, aberto com a Exposição Nacional de Artes Plásticas. Visando romper o isolamento cultural da nova capital, Xavier Júnior, escritor e presidente da Academia Goiana de Letras, apoiado pela Associação Brasileira de Escritores, promove, em 20 e 21 de fevereiro, esse evento, que marcou os novos rumos da cultura e das artes em Goiás. O Congresso Brasileiro de Intelectuais, sediado pela EGBA evidencia-se como marco referencial e deflagrador do pensamento moderno nas artes plásticas em Goiás.

O congresso aconteceu graças a um esforço coletivo que incluiu professores e alunos da EGBA, dispostos a convidar artistas plásticos de todo o Brasil para participarem da exposição. Contou com representantes de várias áreas de conhecimento do cenário nacional e internacional, destacando-se o poeta e escritor Pablo Neruda, além de Lôio Pérsio (pintor), Jorge Amado (escritor), Mário Schemberg (cientista), José Reis Júnior (crítico), Mário Barata (escritor), Orígenes Lessa (romancista), Lima Barreto (cineasta), Inimá de Paula (pintor), Cláudio Corrêa e Castro (ator), Orlando Teruz (pintor), Mário Zanine (escritor), Jordão de Oliveira (pintor e professor), Sérgio Miliet (pintor), Aloísio Sayol de Sá Peixoto (colecionador e animador de arte, de Goiás) e Bruno Giorgi (escultor). Nesse evento, grandes nomes da gravura nacional compareceram a Goiânia, como Carlos Oswald, Carlos Scliar, João Quaglia, Glênio Bianchetti, Marcelo Grassmann, Mário Gruber, Rebolo Gonçalves (pintor e gravador), Osvaldo Goeldi, Renina Katz, Gilvan Samico, Glauco Rodrigues, Vasco Prado, Danúbio Gonçalves, Plínio César Bernhard, Edgar Koetz, Darel Valença Lins, Alfredo Volpi e Mestre Vitalino (gravador popular).

O evento inaugura, em Goiânia, o campo da cultura e das artes plásticas, de tendência moderna, fazendo com que o Centro-Oeste, pelo menos no campo artístico-cultural, passe a ser considerado no cenário nacional, ao promover e eleger temas de grande significação, demonstrando uma enorme preocupação com os rumos da cultura, não só goiana, mas brasileira, ao discutir a defesa da cultura, da indústria editorial e gráfica, o estímulo ao comércio de livros e publicações periódicas, a defesa da literatura infanto-juvenil, além de encaminhamentos para a extinção do analfabetismo, gratuidade e democratização do ensino, dotação orçamentária para fins culturais, estímulo à pesquisa científica, desenvolvimento das ciências aplicadas, liberdade de criação e de escrita, liberdade de associação cultural e profissional, melhoria das condições de vida e do trabalho intelectual, intensificação dos intercâmbios culturais e das relações culturais com os demais povos de forma recíproca.

A “Exposição Nacional de Artes Plásticas”, realizada durante o congresso, legitima definitivamente o contato da sociedade goiana com os ideais modernistas fortemente presentes na arte brasileira, dos anos 20 aos finais dos anos 50, que na gravura se destaca pelo expressionismo figurativo especialmente o praticado pelo Clube de Gravura do Sul liderado por Carlos Scliar. O evento atingiu tal dimensão que lançou Goiás além das fronteiras, incitando muitos comentários, entre eles, o de Bernardo Kordon, (escritor Argentino), em um artigo sobre arte popular karajá, publicado na revista Continente de Buenos Aires e transcrito na revista goiano Renovação (1954, p. 24) Ele afirma:

En el corazón Verde del Brasil rodaban los autos últimos modelos sobre las avenidas asfaltadas. Pero en compensación, dias después pudimos asomarmos a la infancia de la humanidad. Em Goiânia tomamos contacto com el arte de los karajás. Esta experiencia miracullosa se la debemos a la hospitalaria capital del desierto, a la Escuela Goiana de Belas Artes que dirige Luiz Curado e sus professores y artistas Henning Gustav e Fray Nazareno Confaloni.

Em outro comentário feito pelo brasileiro Mário Barata, no Diário de Notícias de Porto Alegre – RS e transcrito nesse mesmo número da Revista Renovação o escritor dizia que “Naquela Capital do Brasil Central, começa a produzir resultados um dos esforços mais simpáticos e estimulantes de todo o País” (LACERDA, 1955, p. 24). O Congresso mereceu também o seguinte comentário da Revista Horizonte, do Clube de Gravura de Porto Alegre, transcrito nessa mesma revista:

uma das grandes virtudes da exposição de Goiânia e não das menores –, foi precisamente de dar uma visão bastante clara do esforço que fazem grandes artistas no nosso país no sentido de fazer uma arte hoje utilizando valores de nossa herança cultural, principalmente popular.

Em torno das artes, uniram-se aqui pessoas das várias tendências, vindas de diferentes realidades socioculturais e artísticas, e de outros países. Para situar as artes de Goiás no cenário nacional, particularmente a gravura, é importante ressaltar que, ao mesmo tempo em que aqui brotavam as primeiras experiências artísticas modernas, em vários estados brasileiros vivia-se a plena efervescência. Todavia, outro acontecimento importante deve ser levado em consideração: a construção de Brasília e a mudança da capital federal para o Brasil central ocasionam a migração de um grande número de pessoas em busca de prosperidade e de lucro propiciado pela expansão do comércio, o que representou um grande estímulo ao desenvolvimento sociocultural de Goiás, contribuindo para a quebra definitiva do distanciamento de Goiás dos estados mais avançados do país.

O desenvolvimento das artes em Goiás, inclusive da gravura, visa a definição do perfil sociocultural da nova sociedade. Em virtude disso, as artes, na nova capital, nasceram ligadas a instituições como a EGBA, marco institucional do ensino superior de Arte em Goiás, articulada por Luiz Augusto do Carmo Curado, incorporada, como já mencionado, à Universidade de Goiás (hoje PUC) e pelo IBAG, segunda escola de arte de Goiás, ligado inicialmente ao Estado, e que veio posteriormente pertencer à Universidade Federal de Goiás (UFG), atual Faculdade de Artes Visuais.

 

A gravura na EGBA
A EGBA abre seus cursos em 1954, e a gravura tem dois importantes fundadores: Luis Curado que aprende gravura no Colégio Jesuíta Anchieta, em Friburgo e D. J. Oliveira que fez parte da Casa Santa Helena (SP), no período de 1949-1956. Curado funda, através do currículo da escola, o ensino de xilografia, da gravura em gesso e da serigrafia.

D. J. Oliveira evidencia-se como o segundo fundador da gravura goiana. Pratica a xilografia e começa a ensinar o método de gravação em madeira na EGBA, em 1961, e inicia, nessa escola, em 1967, com Grace Maria de Freitas os primeiros experimentos de gravação em metal, em chapa de latão, embora sua produção em gravura seja realizada em chapa de ferro, nas técnicas de água-tinta, água-forte, água-tinta de açúcar e ponta seca.

Estimulado pelos Professores Frei Nazareno Confaloni e Luiz Curado, pela desenvoltura de seu desenho figurativo D. J. Oliveira não só se sente motivado a fazer gravura, mas funda, em 1971, na EGBA, o ateliê de gravura em metal. A prensa desse ateliê configura-se como a segunda prensa 3para gravura em metal, no Brasil, é feita pela Casa Topal, de São Paulo e foi comprada sob a orientação de Marcelo Grassmann. Essa sala recebe o nome de “Sala Maria de Castro”, em homenagem ao incentivo recebido dessa professora, quando diretora da EGBA.

D. J. Oliveira permaneceu ligado ao ensino, na EGBA, durante 11 anos (de 1961 a 1972). Ao abandonar a escola, no mesmo ano, manda construir em Goiânia sua própria prensa, fabricada com base em um modelo francês, visto pelo artista em um ateliê da cidade de Madrid (Espanha). A prensa de D. J. Oliveira é a terceira de Goiás porque Vanda Pinheiro já havia montado seu ateliê de gravura em metal. D. J. Oliveira deu, pela vasta produção, impulso à gravura no estado, ao dedicar grande parte de sua obra a essa linguagem.

Frei Nazareno Confaloni aprendeu a gravar em madeira com Luiz Curado, fez incursões pela gravura, usando a técnica de xilografia ao fio e realizou as primeiras experiências em monotipias, utilizando o processo positivo e negativo. Às vezes, usava ácidos para criar texturas em pedra, a fim de proporcionar relevos e efeitos de profundidade nas monotipias. O processo era bastante rudimentar, tanto para gravar a matriz quanto para imprimir, e as gravuras, obtidas mediante ensaio e erro, até alcançar o resultado desejado. Nessas condições, a evolução da gravura goiana, tanto do ponto de vista técnico quanto estilístico, acontece de forma lenta.
Na EGBA, as disciplinas Gravura e Fotografia, são requisitos para o Curso de Desenho Aplicado, que tem duração de cinco anos. Essas disciplinas eram ministradas por Curado que aprendera no Colégio Jesuíta Anchieta, em Friburgo, cidade fluminense, onde vive alguns anos de sua vida, dedicando-se aos estudos religiosos. Nas horas vagas, dedicava-se às artes plásticas, à música, ao desenho, encadernação, ao teatro e à tipografia, que começara a aprender com seu pai em sua oficina, em Pirenópolis, quando ainda criança. Essas disciplinas eram oferecidas aos alunos da EGBA a partir da segunda série, estendendo-se até a terceira, enquanto que na ENBA, eram ministradas como cursos avulsos (COSTA, 1955, p. 9). Dada a flexibilidade do currículo, a disciplina Gravura era acessível a qualquer aluno de qualquer curso e série.

Na EGBA a técnica da xilografia é quase que substituída no começo de 1971 pela calcografia, usando-se latão e o ferro como suporte de gravação. D.J. Oliveira, que ensinava essa técnica, estruturou, com uma prensa, o primeiro ateliê de gravura em metal na EGBA. Os gravadores egressos da EGBA são: Isa Costa, que faz xilografia e se especializa no México, em calcografia e Ana Maria Pacheco, escultora que se especializa em gravura em metal na Inglaterra com sua produção centrada no cobre.

 

A Gravura no Instituto de Artes da UFG
Em 1967 é fundado o Instituto de Belas Artes de Goiás4 (IBAG), incorporado à UFG, com o nome de Instituto de Artes (IA/UFG), atual Faculdade de Artes Visuais, escola que marca o desenvolvimento das artes visuais e da gravura goianas.

No IBAG (IA/UFG) o ensino de gravura fica a cargo de Cléber Gouvêa. Como pintor, faz cursos de xilografia, com Misabel Pedrosa, e litografia, na Imprensa Oficial de Minas Gerais. Posteriormente, faz um estágio na Fundação Álvares Penteado, em São Paulo, com Marcelo Grassmann e Iara Tupinambá, artista mineira com quem aprende xilografia.

No entanto, por falta de condições físicas e materiais para a prática da disciplina, Cleber Gouvêa, contratado para ocupar a cadeira de gravura, passa a ensinar pintura e desenho e, simultaneamente, implementa o ateliê de gravura, estruturado inicialmente com duas prensas: uma para a xilografia, feita por um artesão goiano, e outra para litografia. A propósito, os primeiros contatos da sociedade goiana com a gravura em metal (calcografia), segundo Heleno Godói de Sousa, se deram com uma exposição de Isa Costa, realizada em 1968, na sede da Caixa Econômica Federal, situada à Rua 2, no Centro de Goiânia.

No IBAG, Cleber ensinou vários processos de gravura: xilografia e introduz a litografia, em 1968, processo ainda não conhecido em Goiás. Faz experimentos em calcografia em chapa de ferro (1969), tendo, entre seus alunos, Heleno Godói de Sousa.

Na Instituição federalizada, gravura e Cleber Gouvêa, não são sinônimos apenas de sucesso. Ambos enfrentam, assim como na EGBA, momentos de grandes dificuldades. Cleber Gouvêa, como Luiz Curado e D. J. Oliveira, isolados dos grandes centros, não tinham acesso a materiais adequados à prática da gravura.
É importante ressaltar que o desenvolvimento da gravura como linguagem se fortalece a partir de sua introdução na instituição federalizada – no Instituto de Artes (IA) da UFG – através da Habilitação em Gravura do Curso de Artes Plásticas. Cleber, que embora não grave em Goiás, faz experimentos na técnica de gravação em ferro e cobre e fez escola, com vários seguidores nessa técnica, e introduz a litografia em Goiás.

Quanto ao artista plástico e professor Cleber Gouvêa, é preciso dizer ainda que ele não só foi responsável pela implementação do ateliê de gravura e pela introdução da litografia no Instituto de Artes da UFG, em Goiás, mas também, assim como D. J. Oliveira foi mentor e incentivador de uma boa parte dos gravadores goianos, impulsionando o desenvolvimento da gravura por meio de seus alunos e de seu discípulo José César Teatini de Souza Clímaco, que além de ser um dos mais atuantes gravadores goianos da atualidade, juntamente com Heliana de Almeida Leivas, também é professor de gravura da Faculdade de Artes Visuais da UFG.

José César, aluno de Cleber Gouvêa e frequentador do ateliê de D. J. Oliveira, se torna o responsável pela “germinação” do que se poderia denominar de terceira geração de artistas gravadores de Goiás. No IBAG o ensino de gravura está relacionado aos professores Cleber Gouvêa, José César Teatini de Sousa Climco, Heliana Almeida Leivas, Selma Rodrigues Parreira e Edna Goya. Todavia, a introdução dos métodos e técnicas de impressão, nessa escola, se deve aos dois primeiros.

No IBAG, assim como na EGBA, o método de ensino artístico, bem como a estrutura curricular dos cursos de artes, sofre influência direta da ENBA, com base em modelos para serem reproduzidos. São assimilados por Luis Curado, adaptados e introduzidos em Goiás através da EGBA. A prática de ensino sustentada em modelo é posteriormente levada para o IBAG, pelo fundador da escola, professor Antônio Henrique Péclat, ex-professor da EGBA e que também aprimora seus estudos de arte na Escola Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro de 1941 a 1944.

 

A Gravura e as duas escolas goianas de Arte
Mesmo a gravura, na EGBA e no IBAG, tendo sido praticada com dificuldades de acesso aos materiais mais sofisticados e pela distância dos “grandes centros”, conseguiu desenvolver-se e seduzir uma geração de gravadores que, graças aos ensinamentos dos fundadores, tornou-se destaque, em Goiás e no Brasil, ao formar significativa quantidade de artistas. Entre os que mais se destacaram na EGBA conta-se com as alunas Isa Costa e Ana Maria Pacheco, com sua produção centrada no cobre.

No IBAG, a gravura adquire maior visibilidade ao ser praticada por vários artistas, a exemplo de Zofia Ligesa Stamirowska (1903-1979), com a xilografia, litografia e metal, Heleno de Sousa Godói (figura 10); Reinaldo Barbalho (xilografia); Maria Heliana Almeida Leivas (xilografia e Collagraph); Maria Eugênia Curado (calcografia em cobre); de Dinéia Dutra (calcografia em ferro); Selma Rodrigues Parreira (calcografia em cobre) e José César Teatine de Sousa Clímaco (xilografia, calcografia em cobre, litografia, plastigrafira e serigrafia).

Com José César inicia-se o que se poderia denominar de terceira geração de gravadores de Goiás, com os artistas Liosmar Martins (xilografia, litografia ecollagraph); Herculano Ramos (calcografia em cobre e ferro) e Edna Goya (xilografia, litografia, calcografia e serigrafia).

Com os artistas fundadores: Luiz Curado, D. J. Oliveira e Cleber Gouvêa, da EGBA e do IBAG, se tem a segunda geração de gravadores. A elevação da gravura à condição de arte autônoma é conquista dos pioneiros, de seus alunos e de vários outros artistas que, de certo modo, estiveram direta ou indiretamente ligados ao grupo pelas duas escolas, ou pelos salões de arte. São eles: Roosevelt (calcografia em ferro); Vanda Pinheiro (calcografia em ferro), que fez gravura nos ateliês livres de D. J. Oliveira e de Cleber, Laerte Araújo (calcografia em cobre); Fernando Thomem (xilografia), formado na Escola Guignard e aluno do curso livre de Ana Maria Pacheco.

A gravura goiana conta ainda com Paulo Fogaça (serigrafia), que faz gravura no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, Washinton Honorato Rdrigues (serigrafia), aluno de D. J. Oliveira, do Curso Livre da EGBA; Naura Timm (litografia), formada na ENBA, Rio de Janeiro. Tem-se Antunis Arantes, Dec (Allan Kardec Cardoso Teixeira) e Octo Outorino Marques, artistas independentes.

Considerações finais
O desenvolvimento e a afirmação da gravura goiana estão associados, não só ao ensino artístico, promovido pelas duas escolas de artes, mas a vários outros fatores, a exemplo da criação das galerias e museus, em substituição aos improvisados saguões de teatro, de jornais ou livrarias dos anos 50, levando Goiás a promover mostras e incentivar os novos valores artísticos. A iniciativa pública e privada começa a organizar-se para criar e promover salões de artes e concursos, em nível local e regional, fatores que abrem espaços para critica de arte, tanto local quanto externa.

Conta-se com diversas exposições de gravura, a exemplo da mostra de Cartazes Americanos Contemporâneos, em estilo “Pop”, em que apresentava diversos processos de impressão de gravura, promovida pelo Museu de Arte da Prefeitura Municipal de Goiânia e pelo Centro Cultural Brasil Estados Unidos, aberta ao público no Palácio da Cultura, na Praça Universitária, no dia 2 de agosto de 1969. Têm-se ainda várias exposições de gravura brasileira e cursos de gravura, entre eles, dois ministrados por Ana Maria Pacheco, professora, desenhista, pintora, escultora e gravadora, que, formada em Escultura na EGBA, em 1964, iniciou e aperfeiçoou seus conhecimentos sobre essa arte na Groydon School of Art, na Inglaterra, de 1973 a 1977. Em 1978 e 1981, atuou em Goiânia, ministrando dois cursos de calcografia (em cobre), para os gravadores goianos.

Mas é importante ressaltar que o modernismo que se instala, em Goiás, em 1954, nas artes plásticas, por meio dos artistas pioneiros não se configura como um movimento em busca de uma ideologia estética, voltada para o nacional, a exemplo do modernismo paulista, mas estimulado pela nova condição política de modernização de Goiás, para inserir-se social, econômica e culturalmente no cenário nacional. O desenvolvimento do pensamento moderno, nas artes plásticas, consequentemente, na gravura, em Goiás, acontece em certo descompasso no que se refere a outras áreas produtivas da cidade, a começar pelo projeto de arquitetura dos prédios públicos da cidade, feitos, em 1937, ancorados no ideal estético da Art Déco, considerado, na época, um estilo moderno, favorecendo a um salto para o progresso, possibilitando a entrada e a expansão do capital em Goiás. Também no campo da Literatura já se experienciava, desde 1945, a modernidade.

 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
CHAUL, Nasr N. Fayad. A construção de Goiânia e a transferência da capital. Editora CEGRAF: Goiânia, 1988.

COSTA. Waldir. Caderno da Escola Goiana de Belas Artes. In: Revista Renovação. Nº 1, Goiânia, 1955, p. 7-8, 28.

GOYA, Edna de Jesus. 1998. A arte da gravura em Goiás. Dissertação de Mestrado, Universidade de São Paulo.

LACERDA, Regina. “O que foi a exposição do Congresso Nacional de Intelectuais”. In: Revista Renovação. Nº 1 Goiânia, 1955, p. 23 – 24.

OLIVEIRA, Jordão de. “Prof. Jordão de Oliveira”: pronunciamento durante o Primeiro Congresso Nacional de Intelectuais. In: Revista Renovação. Nº 1, Goiânia, 1955. p. 11.

SABINO JUNIOR, Oscar. Goiânia Global. Goiânia: Editora Oriente, 1980.

SALGUEIRO, Heliana Angotti. A singularidade na obra de Veiga Valle. Goiânia, Editora da UCG. 1983.

 

1 Desenhista, pintor e gravador.

2 O projeto de escolinha de arte é retomado, em 1962, com a abertura da Escolinha de Arte Infantil Veiga Valle, fundada em 1948 nos moldes da Escolinha de Arte do Brasil, do Rio de Janeiro.

3 A prensa de gravura se encontra no ateliê de ates gráficas do Curso de Arquitetura da UCG.

4 A escola de artes da UFG muda de nome várias vezes: 1960/61, IBAG (Instituto de Belas Artes de Goiás), seu primeiro nome; Faculdades de Artes da UFG, ao agregar-se à UFG, em 1963; Instituto de Artes da UFG, ao anexar-se ao Conservatório de Música, em 1969 e Faculdade de Artes Visuais da UFG, a partir de 1996, ao se separar da Música.

 

*Edna Goya é professora da Faculdade de Artes Visuais/UFG. Doutora em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo/SP; Mestre em Arte Publicitária e Produção Simbólica pela USP-SP (1998); Especialista em Educação (PUC/GO, 1986) e em Arte-Educação (UFG, 1989); Bacharel em Artes Visuais-Gravura (UFG, 1992) e Licenciatura em Desenho e Plástica (UFG, 1983). ednajgoya@yahoo.com.br