CHAMADA DE ARTIGOS

Literatura e feminismo

O número 2/2021 da Revista Z Cultural apresentará um dossiê dedicado às relações entre a literatura e o feminismo com a intenção de provocar debate, estimular novas perspectivas críticas e divulgar a literatura produzida por escritoras brasileiras no presente extremo que vivemos.

Da invisibilidade de que a literatura escrita por mulheres foi vítima no século XIX, passamos, nos anos 1920, pelas primeiras escritoras feministas que interferiram no espaço cultural, chegamos aos anos 1960 e, a partir de então, escritoras foram decisivas para a história da literatura brasileira.

Estamos, no contemporâneo, diante de forte e original produção e percebemos que o caminho atravessado pela escrita literária de autoria feminina se deu junto a questionamentos, tanto sobre a condição social da mulher, quanto sobre o que entendemos como literatura.

A experiência social das mulheres afirmou-as como produtoras de conhecimento na constituição de novas epistemologias que divergem das impostas por diversas formas de protagonismo patriarcais, colonialistas, excludentes.

Todo esse movimento que levou à constituição de contraepistemologias e à elaboração de contranarrartivas se fez conduzido pelas diversas possibilidades do feminismo, inclusive os feminismos decoloniais, importantes especialmente para as mulheres latino-americanas. Essas concepções plurais muitas vezes entram em choque, tensionando a própria definição de feminismo. Também já é mais do que evidente que as questões de gênero são indissociáveis das questões de raça e se conjugam a múltiplas políticas pós-identitárias.

Afirmando-se ou não feministas, as escritoras que gostaríamos estivessem em pauta no debate que a Revista Z Cultural propõe trazem às suas obras temas como sexualidade, desejo, abuso, assédio, exclusão social, racismo, maternidade, aborto, medo, violência, submissão e outras questões que os movimentos feministas levam para suas manifestações, debates, estudos e pesquisas. Para além da insurgência, vão criando obras inovadoras onde a intimidade pode ser poética e o uso da primeira pessoa, na ficção e na poesia, é mais do que um recurso de linguagem.

São textos que se inscrevem no corpo, em performances, em cantos, nas artes cênicas ou visuais. Podem ser também protestos, reivindicações, expressões de traumas em movimentos que reúnem ambição estética, ética e política. É uma literatura que frequentemente busca um novo uso das tecnologias da escrita e experimenta manifestações literárias que estabelecem uma nova relação com o público.

Esse dossiê gostaria de ser oportunidade de recolhermos colaborações inéditas em torno de três objetivos principais:

1. Pôr em discussão, não só no ambiente acadêmico, mas em múltiplos círculos, a reflexão sobre literatura em suas formas diversas, colocando o próprio sistema de circulação da ficção e da poesia em debate e indagando por que expressões da literatura negra e indígena são ainda pouco contempladas pelo sistema editorial no Brasil.

2. Estimular a circulação de novas possibilidades de crítica que escapem do universo dos cânones, mesmo os femininos. Indagar se existe uma crítica feminista. Debater como se constitui, neste momento, a recepção de obras que optam por modelos dissidentes. É possível identificar uma obra literária como feminista, independente da autodeclaração da autora?

3. Indagar se chegamos ou não ao fim da centralidade da literatura no campo artístico. Como falamos em literatura no momento em que suportes são questionados, cânones são desmontados, as separações entre diversas manifestações artísticas são frequentemente anuladas? Como as múltiplas expressões artísticas se movem entre novas possibilidades de fruição, reconhecimento e consumo?

Partindo da ideia de que literatura é bem mais do que uma disciplina acadêmica, um panteão de reconhecimento, uma instituição, uma forma fixa de arte arraigada ao papel, buscamos com esse dossiê apontar a potência que significa ler, conhecer e reconhecer a literatura escrita por mulheres.

Beatriz Resende
Curadora do dossiê

Os textos podem ser enviados até o dia 30 de agosto de 2021 para o e-mail revistazcultural@gmail.com, respeitando-se as normas de publicação da revista.