Editorial
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CRÍTICA E CURADORIA

O declínio da crítica considerada em sua dimensão pública, como forma privilegiada de mediação entre público e artistas, talvez não implique exatamente numa lacuna ou exaustão, como querem afirmar alguns observadores recentes das relações entre arte e sociedade, mas antes numa reconfiguração. Pois à baixa das ações da crítica parece corresponder, nas últimas décadas, o crescente prestígio atribuído a uma outra forma de recepção e publicização das obras de arte: a atividade curatorial. Nessa transformação em que se poderia ver apenas uma forma de captura (mais uma) da cultura pelo mercado – redução do debate à divulgação, da interpretação ao endosso promocional, do juízo reflexivo à dica de consumo – este dossiê sugere estar em jogo, mais bem, uma reconfiguração das fronteiras entre os termos implicados na discussão: crítica, curadoria, criação artística. A seleção de temas e trabalhos a serem postos em pauta, o estabelecimento de relações entre diferentes obras e artistas, assim como de modos de acesso a eles, por meio da elaboração de uma determinada estratégia expositiva – esses e outros aspectos do trabalho curatorial são pensados aqui menos como diferentes etapas de um saber especializado do que como um repertório de procedimentos que guardam um potencial crítico próprio e são, ao mesmo tempo, indispensáveis à compreensão das práticas artísticas contemporâneas.

Crítica e criação se aproximam na figura emblemática do cineasta Quentin Tarantino e em sua poética citacional, tal como analisada por Rodrigo Fonseca, atravessada por modos diversos de reciclagem e alusão à história do cinema. Também em torno de questões de citação e daquilo que chama de “escrita de segunda mão” se situam as reflexões de Leonardo Villa-Forte sobre o projeto Paginário, mural urbano feito de fragmentos de obras literárias escolhidos por meio de processos curatoriais coletivos. A encarnação mais recente do projeto, em Lisboa, como parte das comemorações pelo Dia Mundial da Língua Portuguesa, enseja uma revisão crítica e atualizada, em chave pós-colonial, dos debates já clássicos sobre pastiche e paródia no capitalismo tardio.

A ideia da montagem como forma de desconstrução do arquivo colonial é o ponto de partida da leitura empreendida por Jânderson Albino Coswosk do filme Frantz Fanon: Black Skin, White Mask, de Isaac Julien, que se desdobra ainda numa discussão sobre masculinidade negra e relações de gênero na obra de Fanon. Na seara literária, Antonia Costa de Thuin encontra no livro A mais recôndita memória dos homens, de Mohamed Mbougar Sarr, um arquétipo feminino de cuidado e criação (a Aranha-mãe) que orienta sua investigação de mulheres e espaços de curadoria voltados à criação e manutenção de redes de apoio a novos artistas e escritores no continente africano. Já Felipe Machado discute a exposição Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro, e Fernando Codeço e Julia Naidin propõem a elaboração de “curadorias contextuais” a partir de um projeto de arte em Atafona, pequena praia em vias de desaparecimento no litoral norte do estado do Rio de Janeiro. E Cristine Carvalho faz um levantamento histórico da curadoria para sugerir caminhos por meio dos quais os museus podem se tornar “laboratórios de produção de conhecimentos novos, novas narrativas e novas representações cênicas”. Por fim, reproduzimos vídeo de importante comentário da pesquisadora e crítica Flora Süssekind, que comenta a crise contemporânea da crítica em sua participação na Festa Literária Internacional de Paraty de 2023.

Inês Cardoso e Miguel Conde
Curadores do Dossiê

Além do dossiê, este número publica uma homenagem de Luis Eduardo Soares ao professor e poeta Italo Moriconi e um artigo em que Osmundo Pinho identifica e discute uma poética da masculinidade negra na obra de quatro autores: Solano Trindade, Lande Onawale (Ori), Davi Nunes e Fábio Mandingo. São publicadas também resenhas dos livros No vestígio: negridade e existência, de Christina Sharpe (2023), por Eduardo Leal Cunha, e Sempre Susan, de Sigrid Nunez (2023), por Beatriz Resende.

O número termina com uma importante entrevista com a diretora, curadora e encenadora Bia Lessa, que comenta sua relação com a crítica e o processo de transposição de Grande Sertão: Veredas para o teatro e a tela, e com a republicação, na seção Vale a Pena Ler de Novo, de “Repensando a História Literária”, seminal texto de crítica feminista de Ria Lemaire.

Este número da Revista Z Cultural marca uma nova fase da revista, com a modernização de seu aspecto gráfico, que agora torna a leitura mais fluente, inclusive em dispositivos móveis.

Beatriz Resende
Lucas Bandeira

Editores da Revista Z Cultural