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A cidade dividida nas charges de Mangabeira | de Marcelino Rodrigues da Silva


“No futebol, cada clube não tem uma torcida, tem um partido organizado,
e eles se aliam ou se separam conforme os azares do campeonato.”

Carlos Drummond de Andrade

Estado de Minas, 21 out. 1956.

Se o mundo do futebol pode ser visto como um grande teatro no qual se projetam os sentimentos de pertencimento, sofrimentos e aspirações de indivíduos e grupos sociais, o discurso jornalístico é certamente a principal instância em que essas significações são produzidas, compartilhadas e cristalizadas. Por isso, é no jornalismo esportivo que tenho concentrado as atenções, ao longo de minha trajetória como pesquisador, em busca de elementos que ajudem a compreender o complexo fenômeno cultural que se desenvolveu em torno do futebol no Brasil.1

 

Após dispensar alguns anos à pesquisa sobre a construção e o funcionamento da mitologia esportiva nacional, que historicamente teve o Rio de Janeiro como seu palco principal, tenho me dedicado mais recentemente ao estudo do passado e do imaginário do futebol em Belo Horizonte, cidade onde nasci e continuo vivendo. Nessa investigação, inevitavelmente dispersa em diferentes momentos do século XX, as décadas de 1940 a 1960 acabaram se impondo como as mais significativas, por marcarem a consolidação da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro, fato de inegável relevância na vida esportiva belo-horizontina e mineira. Para um breve panorama desse trabalho, pode servir como ponto de partida a história do surgimento dos mascotes dos clubes e a produção do artista que os concebeu.

Os símbolos dos principais clubes de futebol de Belo Horizonte (o Galo para o Atlético, a Raposa para o Cruzeiro e o Coelho para o América) foram criados pelo desenhista Fernando Pierucetti (1910-2004), em 1945, para o jornal Folha de Minas, que tinha uma das seções esportivas mais vibrantes da imprensa mineira daquela época. No ano seguinte, o artista se mudou para o Diário da Tarde e pouco depois para o Estado de Minas, onde continuou publicando por várias décadas. O surgimento dos mascotes foi motivado pelo desejo de Álvares da Silva, secretário da Folha de Minas, de lançar charges parecidas com as que, na mesma época, o Jornal dos Sports publicava no Rio de Janeiro (o Flamengo era o Popeye, o Fluminense o Pó-de-arroz, o Vasco o Almirante, o Botafogo o Pato Donald e o América o Diabo). Ao pedido de Álvares da Silva, Fernando Pierucetti, que era professor de desenho e ilustrador do suplemento literário e da página infantil do jornal, respondeu com a proposta de fazer os mascotes no espírito das fábulas de Esopo e La Fontaine, mas utilizando animais da fauna brasileira. Adotando o pseudônimo de Mangabeira, ele fez os desenhos, não só para os mascotes de Atlético, Cruzeiro e América, mas também para diversos outros clubes da capital e do interior do estado.2

 

Estado de Minas, 14 jan. 1968.

A inspiração para a escolha dos bichos vinha, em grande medida, de elementos que já faziam parte da imagem dos clubes: o Atlético, com sua fama de “bom de briga” e seu uniforme preto-e-branco, que lembrava um galo da raça carijó, seria o Galo; o Cruzeiro, que costumava ter dirigentes italianos de incomparável esperteza para os negócios (como Mário Grosso, presidente da época), seria a Raposa; o América seria o Coelho, que era o sobrenome de vários diretores do clube e combinava com a sua personalidade “fagueira”; o Villa Nova, de Nova Lima, seria o Leão, pois “fazia os adversários sentirem-se em seu estádio como leões na arena”; o Siderúrgica, criado em Sabará por funcionários da Usina Belgo-Mineira, seria uma tartaruga com a carapaça dura como aço; e assim por diante. 3

Desde o seu nascimento, portanto, os bichos de Mangabeira capturavam algumas das significações, tendências e possibilidades de desenvolvimento futuro que estavam em jogo naquele momento da história esportiva da cidade. O Atlético, forte desde as primeiras décadas do século e cada vez mais querido pelos torcedores das classes populares, e o Cruzeiro, que com astúcia e perseverança vinha se tornando cada vez mais poderoso, já começavam a cultivar a rivalidade ritual que dividiria a cidade ao meio, duas décadas depois. Enquanto isso, o América se encontrava num lento processo de decadência, que começou na década de 1930 e se completou apenas nos anos 1960. O combate fabuloso entre o Galo, que defende bravamente seu terreiro das ameaças externas, e a Raposa, bicho atilado que busca com astúcia invadir o território inimigo, foi logo assimilado pelos adeptos de ambos os clubes. Conta-se, por exemplo, que Zé do Monte, ídolo do Atlético nas décadas de 1940 e 1950, costumava entrar em campo com um galo debaixo do braço. Em resposta, a torcida cruzeirense prometia soltar uma raposa em campo, para caçar o bicho de Zé do Monte.

Mas a história da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro não pode ser contada sem um recuo às primeiras décadas do século, quando a recém-fundada nova capital do estado dava seus primeiros passos. Já nesses anos iniciais, a prática de esportes como o turfe e o ciclismo fazia parte da vida belo-horizontina, como componente de um imaginário de sofisticação e modernidade que inspirou o projeto de construção da cidade. Os primeiros clubes de futebol surgiram em 1904, com a chegada de Victor Serpa, um estudante de família abastada que vinha de uma temporada na Europa, trazendo as últimas novidades da metrópole. O Atlético, fundado em 1908, e o América, criado em 1912, foram os principais clubes desse primeiro momento da história futebolística de Belo Horizonte, e cultivaram entre si uma acirrada rivalidade, cuja significação principal estava no caráter elitista e de distinção social que o futebol emprestava a seus adeptos naquela época.4

Entretanto, não demorou muito para que a popularização do esporte provocasse uma transformação nesse panorama. Entre os indícios da mudança, está o próprio surgimento do Palestra Itália, em 1921, por iniciativa dos membros da colônia italiana da cidade, que era predominantemente formada por operários, artesãos, comerciantes, trabalhadores da construção civil etc. Outro momento de grande importância foi a criação da primeira liga profissional de futebol, em 1933, como resultado da presença cada vez maior de interesses econômicos de dirigentes e atletas, decorrentes da popularização do esporte. Enquanto Atlético e Palestra aderiram ao profissionalismo, seguindo uma tendência de crescimento e modernização que se manifestava em diversos campos da vida cultural belo-horizontina, o América permaneceu amador, capitulando ao profissionalismo apenas em 1943, fato que certamente interferiu de maneira decisiva em sua trajetória posterior.

Embora o Palestra já tivesse surgido como um clube forte, conquistando três títulos na década de 1920, o confronto entre Atlético e América continuou sendo considerado, por muito tempo, o principal clássico da cidade, recebendo da imprensa o epíteto de “clássico das multidões”. Na década de 1930, marcada institucionalmente pela profissionalização, a hegemonia esportiva esteve sintomaticamente nas mãos do Villa Nova, clube que tem suas raízes ligadas aos operários da mina do Morro Velho, em Nova Lima. Nos anos 1940 e 1950, o Atlético se manteve sempre no primeiro plano, enquanto o América continuava em lenta decadência e o Cruzeiro em progressiva ascendência. A única exceção foi o ano de 1948, quando o América conquistou o título estadual diante do Atlético, num confronto antológico que pode ser considerado como o último avatar da grande rivalidade que houve entre os dois clubes nos primeiros decênios do século. Foi apenas na década de 1960 que o Cruzeiro passou a ser amplamente considerado como o principal rival do Atlético, conquistando títulos importantes e ampliando sua torcida graças a um time sensacional, formado por craques como Tostão, Dirceu Lopes e Piazza.

A decadência do América e a consolidação da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro foram fartamente registradas e comentadas por Mangabeira, em seus desenhos para o Estado de Minas. Como no início de 1968, quando uma curiosa série de charges lamenta a agonia do Coelho, contrapondo-a à supremacia que Galo e Raposa vinham exercendo na eterna luta entre os bichos do futebol mineiro. Em 20 de janeiro daquele ano, por exemplo, o desenho de um globo terrestre dominado por Galo e Raposa, enquanto o Coelho levita para o “outro mundo” onde estão os bichos “que também já morreram”, vem acompanhado de uma longa legenda que começa assim: “o Super-Coelho entra hoje, definitivamente, no esquecimento. Já foi enterrado e agora pertence ao mundo dos mortos. Enquanto na terra todos falam na eterna briga do Galo com a Raposa, o Super-Coelho caminha para o Além…”

Estado de Minas, 20 jan. 1968.

Na criação dos mascotes, como vimos, Mangabeira se inspirou em determinados elementos que já faziam parte do imaginário esportivo da cidade, trazendo para a simbologia dos bichos muitas das significações que já estavam projetadas nos clubes naquele momento. Além da referência ao uniforme do clube – listado como um galo carijó –, o Galo de Mangabeira remetia à mística do “vingador”, cultivada pelo Atlético desde os seus primeiros anos e ressignificada com a popularização do clube a partir dos anos 1930. Da história de uma sequência de jogos em 1913, contra o Granbery de Juiz de Fora, a fama de vingador se transmutou na mística da raça e da paixão desmedidas, que hoje é marca registrada do time e da torcida atleticana. Citando uma reportagem de João Vianna de Oliveira, publicada no jornal O Debate em 1956, a Enciclopédia do Atlético, de Adelchi Ziller, define assim a inspiração de Mangabeira para compor a personalidade do mascote atleticano:

O Atlético é um time que vende caro uma derrota. A vantagem do adversário no placar não lhe tira a garra. Parece um galo de rinha. Um galo na rinha? Justamente: seu símbolo será o Galo, o Galo Carijó, entrando o adjetivo na história por obra e graça de suas cores tradicionais: preto e branco. E o Atlético surgiu nas charges de Mangabeira a caráter: raça de brigão, de sujeito mal encarado, o bico adunco e sempre pronto para rasgar a carne antagonista.5

A escolha da Raposa como símbolo do Cruzeiro, por sua vez, fazia referência à trajetória de muitos dos membros da colônia italiana em Belo Horizonte, cuja astúcia para os negócios possibilitou a ascensão às camadas privilegiadas da população da cidade. Ao lado dessa astúcia, que emula uma racionalidade prática típica do capitalismo, o trabalho e a perseverança também marcaram a trajetória daqueles imigrantes e compõem o cerne da mitologia do clube. Na narrativa das tradições cruzeirenses, dispersa nas diversas publicações que falam sobre sua história, esse traço herdado da origem é constantemente lembrado, como justificativa para o crescimento paulatino e constante da agremiação ao longo do século XX. Como, por exemplo, no livro De Palestra a Cruzeiro, de Plínio Barreto e Luiz Otávio Trópia Barreto, que encerra sua narrativa da fundação do clube tocando de modo conciliador na difícil questão da assimilação dos italianos à sociedade belo-horizontina:

O Palestra nasceu como um clube do povo, diferente de seus atuais dois grandes rivais regionais (…) era a agremiação dos que arregaçavam as mangas nas indústrias da panificação, nos andaimes das construções civis, nas oficinas de calçados, nas serrarias, marcenarias e serralherias, na condução das carroças. Onde houvesse um setor cuja mão-de-obra (…) fazia-se necessária, lá estava um palestrino – italianos e brasileiros – colaborando com o seu trabalho para o progresso da nova Capital. Lado a lado, clube e cidade caminhavam rumo ao progresso.6

Metaforizada pela eterna luta dos dois bichos na disputa pelo terreiro belo-horizontino, a rivalidade ritual entre Atlético e Cruzeiro parece, então, opor dois conjuntos diferenciados de representações e valores, por meio dos quais se constroem duas imagens distintas. Se hoje ambos os clubes reivindicam para si o atributo “popular”, não há dúvidas de que se trata de duas formas diferentes de ser popular. O Atlético, com sua mitologia da raça e da paixão desmedida, parece reafirmar a diferença de um povo passional, intuitivo e sofredor, personificando a heterogeneidade e as energias incontroláveis das massas e opondo-se ao processo de modernização. O Cruzeiro, por sua vez, reforça o vetor desse processo com suas raízes na ação dos próprios europeus como agentes modernizantes e seu ideário marcado por valores e atributos como trabalho (o próprio fundamento do sistema capitalista), perseverança, astúcia e sucesso. 7

Essas significações reverberam, de forma diluída e disseminada, em inúmeros discursos do imaginário esportivo belo-horizontino. A fundação do Atlético por um grupo de estudantes de boa família é contada como um momento de rebeldia inconsequente de garotos que mataram aula para se encontrar no coreto do Parque Municipal. O ambiente social elitista dos primeiros anos é amenizado pela figura acolhedora de dona Alice Neves, mãe de um dos fundadores que acolhia os primeiros encontros do grupo e é tomada como símbolo de um clube que “soube se abrir para o mundo” e “foi generoso com os torcedores que bateram à sua porta”. 8 No panteão dos grandes ídolos atleticanos, destacam-se figuras como o humilde e folclórico Dario Peito de Aço e o negro Ubaldo, que fazia “gols espíritas” na década de 1950 e foi carregado pela massa do estádio Independência até o centro da cidade após um jogo em 1955, num episódio de verdadeira comunhão do clube com o povo. Mediação social e potencial de conflito fundem-se na mitologia do Galo de uma forma semelhante à que, dentro de certa tradição cultural, tem sido identificada como característica definidora da identidade nacional brasileira, baseada na hibridação étnica e cultural e na conciliação sempre tensa das diferenças.

Do outro lado da fronteira simbólica que divide a cidade ao meio, na galeria de herois cruzeirenses os craques do gramado (muitos deles de origem italiana) dividem as glórias com dirigentes quase tão celebrados quanto os próprios jogadores. Como os pioneiros Aurélio Noce e Antonio Falci, e depois Mário Grosso, Felício Brandi, Carmine Furletti etc. A trajetória histórica do Cruzeiro é vista como uma linha contínua de ascensão, “sem lances de heroísmo pungentes” e marcada pela “simplicidade de um trabalho constante e reiterado, quase anônimo, cuja somatória, ao correr do tempo, conferiu a dimensão grandiosa, internacional, universal, de um dos maiores clubes do mundo”. 2Trabalho, racionalidade e sucesso, portanto, se fundem na mitologia cruzeirense para compor uma imagem heroica do popular, evocando a ideia da multidão de trabalhadores que marcha triunfalmente em direção ao progresso.

Os ecos dessas significações ainda se fazem presentes na cena contemporânea. Se a torcida do Atlético é fiel e apaixonada, a do Cruzeiro é exigente, ranzinza, acostumada a cobrar o desempenho de seu time. À possessão da “Galoucura”, encarnando a paixão atleticana, o Cruzeiro opõe a organização e a diligência de sua “Máfia Azul”. No universo da administração dos clubes, o Atlético tem uma mentalidade quase populista, dependendo de um líder forte e carismático como Alexandre Kalil, capaz de superar a corrupção e o desmando e entrar em sintonia com a massa. Enquanto isso, o Cruzeiro vive os benefícios de uma sequência de boas administrações, encabeçadas pelos irmãos Perrella, verdadeiras raposas quando se fala em negócios. Dentro de campo, o rebaixamento do Atlético para a série B do Campeonato Brasileiro e a volta para a série A, em 2005 e 2006, foram vividos dramaticamente, como mais um episódio de superação do “vingador”. Ao passo que a “tríplice coroa” do Cruzeiro, com a conquista do Campeonato Mineiro, da Copa do Brasil e do Campeonato Brasileiro em 2003, foi mais uma “página heroica” na trajetória cruzeirense.

Estado de Minas, 26 out. 1956. Estado de Minas, 9 dez. 1958.

Curioso notar, no entanto, que a simbologia dos clubes captada pelo traço de Mangabeira elide certos elementos que, de certa forma, apontam para o caráter de artifício dessa tradição inventada.10< Na história atleticana, por exemplo, é difícil assimilar a origem elitista dos garotos que fundaram o clube em 1908. Por isso o acontecimento tem que ser deslocado e transformado pelas narrativas da tradição em um lance de rebeldia, que já prefigurava a identidade que o clube consolidaria ao longo do século. E, na trajetória do Cruzeiro, é flagrante o incômodo que se manifesta nos relatos sobre o momento traumático vivido pelo clube em 1942, quando foi forçado a mudar de nome (de Palestra para Cruzeiro) por um decreto do governo federal que proibia referências aos países do Eixo, num episódio cercado por um pesado clima de animosidade contra os membros da colônia italiana em Belo Horizonte. Com sua referência aos céus brasileiros, a escolha do novo nome do clube deixa entrever o caráter problemático do processo de integração dos imigrantes italianos na sociedade brasileira, projetado na necessidade imposta pela guerra de optar entre a fidelidade às origens e a assimilação por uma nova comunidade nacional.

Assumindo algum risco (pelo menos o de ser censurado por ambas as torcidas), seria possível dizer que essas duas narrativas de tradição clubística se assemelham na ambiguidade, oferecendo à sociedade duas alternativas para a solução simbólica do conflito entre o povo e as elites, necessária ao processo de modernização: a ideologia populista da mediação e do pacto social, investida no Atlético, e a ideologia liberal-capitalista da ascensão pelo trabalho, encarnada no Cruzeiro. Daí a necessidade de mitificar a origem, de esquecer os ressentimentos e de selecionar no passado os lugares da memória que sustentarão a tradição. Para que a popularidade se constitua, é preciso assimilar a origem social daqueles garotos que “mataram aula” para fundar o Atlético, é preciso esquecer momentos de tensão e violência que ameaçaram a integração italiana na cidade.

Desse ponto de vista, ao invés de uma simples oposição, a rivalidade entre Atlético e Cruzeiro pode ser vista como uma complementaridade, que naturaliza e cristaliza a dicotomia entre o tradicional e o moderno, tão disseminada no imaginário e na historiografia belo-horizontina, substituindo e dissimulando outros antagonismos, entre o povo e as elites, brasileiros e italianos etc. Tornados populares, os dois clubes mantêm uma relação especular. O Atlético inveja e busca a racionalidade cruzeirense e o Cruzeiro tem ciúmes da paixão e da fidelidade da torcida atleticana. Os rojões preparados para uma vitória que não chegou hoje poderão sempre ser utilizados na derrota do rival amanhã. A força simbólica de um depende da presença do outro, assim como a cidade precisa conciliar modernidade e tradição, povo e elite.

De certo modo, esta opção interpretativa mais radical nos lembra que, mesmo se estiver fundamentada na experiência dos grupos sociais que se envolveram com os clubes ao longo de sua história, qualquer outra interpretação da rivalidade entre Atlético e Cruzeiro terá algo de abusivo e suplementar. As histórias do futebol e da vida são sempre mais complexas do que os mitos identitários e as construções historiográficas. É preciso reconhecer que tende para o esquematismo qualquer tentativa de “explicar” o universo futebolístico por meio do enquadramento, da classificação e da oposição clara e coerente dos signos esportivos. Porque o futebol, como esporte, espetáculo e universo comunicacional, extrai sua eficácia justamente da capacidade de produzir narrativas que se cruzam, diversificam e desdobram, ao sabor das circunstâncias e das posições enunciativas. É bastante oportuna, portanto, a advertência dada por José Miguel Wisnik, em seu recente livro sobre o futebol, sugestivamente intitulado Veneno remédio:

A divisão da população de uma cidade em times rivais, claramente dualizada em algumas cidades, como acontece com Grêmio e Internacional em Porto Alegre, Atlético e Cruzeiro em Belo Horizonte, e Bahia e Vitória em Salvador, obedece, para além dos perfis sociológicos, a uma necessidade antropológica: a de se dividir em “clãs totêmicos” mesmo no mundo moderno, e disputar ritualmente, num mercado de trocas agonísticas, o primado lúdico-guerreiro, como se não fosse possível ao grupo social existir sem suscitar por dentro a existência do outro – o rival cuja afirmação me nega me afirmando.11

A rivalidade especular entre Atlético e Cruzeiro tem a ver, certamente, com essa “necessidade antropológica” de afirmação e negação do outro, como condição para a realização do jogo social pelo qual se dá circulação dos poderes, sentidos e valores em uma coletividade. Presente tanto na política quanto no esporte, essa necessidade antropológica do jogo e da rivalidade pode ou não encontrar expressão contextualizada mais definida, com contornos razoavelmente legíveis. De qualquer modo, as tensões e os antagonismos sociais estarão sempre presentes, estabelecendo configurações que desafiam a interpretação.

 

* Marcelino Rodrigues da Silva é doutor em Literatura Comparada pela UFMG e professor adjunto da Faculdade de Letras da UFMG. Realizou pesquisa de Pós-Doutorado em Estudos Culturais no Programa Avançado de Cultura Contemporânea (PACC/UFRJ), com financiamento do CNPq.

 

NOTAS

1 Cf. SILVA, Marcelino Rodrigues da. Mil e uma noites de futebol; o Brasil moderno de Mário Filho. Belo Horizonte: Ed. UFMG, 2006.
Cf. também SILVA, Marcelino Rodrigues da. O mundo do futebol nas crônicas de Nelson Rodrigues. 1997. Dissertação (Mestrado em Letras – Estudos Literários.), Faculdade de Letras da UFMG, Belo Horizonte.

2 Cf. GALUPPO, Ricardo. Raça e amor: a saga do Clube Atlético Mineiro vista da arquibancada. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2003, p. 77-78.
Cf. também ZILLER, Adelchi. Enciclopédia do Atlético. Belo Horizonte: Ed. Lemi, 1974, p.221-223.

3 GALUPPO, Ricardo. Raça e amor. Op. cit, p. 78.

4 Sobre a história do futebol em Belo Horizonte nas primeiras décadas do século XX, cf. COUTO, Euclides de Freitas. Belo Horizonte e o futebol: integração social e identidades coletivas (1897-1927). 2003. Dissertação (Mestrado em Ciências Sociais), PUC Minas, Belo Horizonte.
Cf. também RIBEIRO, Raphael Rajão. A bola em meio a ruas alinhadas e a uma poeira infernal: os primeiros anos do futebol em Belo Horizonte (1904-1921). 2007. Dissertação (Mestrado em História), Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFMG, Belo Horizonte.

5 Citado por ZILLER, Adelchi. Enciclopédia do Atlético. Op. cit, p. 223.

6 BARRETO, Plínio e BARRETO, Luiz Otávio Tropia. De Palestra a Cruzeiro; uma trajetória de glórias. Belo Horizonte: [s.ed.], 2000, p. 25.

7 Como referência para a discussão teórica sobre as relações entre a cultura popular urbana e o processo de modernização nas sociedades periféricas, cf.:
CANCLINI, Néstor García. Culturas híbridas: estratégias para entrar e sair da modernidade. São Paulo: EDUSP, 1997.
HALL, Stuart. Notas sobre a desconstrução do “popular”. In: ______. Da diáspora: identidades e mediações culturais. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2003, p. 247-264.
MARTÍN-BARBERO, Jesús. Dos meios às mediações: comunicação, cultura e hegemonia. Rio de Janeiro: Editora UFRJ, 1997.

8 GALUPPO, Ricardo. Raça e amor. Op. cit, p. 41.

9 SANTANA. Jorge. Páginas heróicas; onde a imagem do Cruzeiro resplandece. São Paulo: DBA Artes Gráficas, 2003, p. 32.

10 Para a discussão teórica sobre o papel da memória e do esquecimento na constituição das narrativas identitárias, cf:
BHABHA, Homi K. Disseminação: o tempo, a narrativa e as margens da nação moderna. In: ______. O local da cultura. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1998, p.198-238.
HOBSBAWN, Eric. A invenção das tradições. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1984.
POLLAK, Michael. Memória, esquecimento, silêncio. Estudos Históricos. Rio de Janeiro, v.2, n.3, 1989, p.3-15.

11 WISNIK, José Miguel. Veneno remédio: o futebol e o Brasil. São Paulo: Companhia das Letras, 2008, p. 51.