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[REGISTRO 1] DOIS DE ABRIL DE DOIS MIL E VINTE

Estou há semanas, talvez há meses, planejando escrever uma carta. E quando digo uma carta significa que não planejava escrever esta carta. Planejava vir aqui contar de deslocamentos, de paisagens, da minha última viagem ao sul do Chile. Vim até aqui algumas várias vezes e mudei a data no título. Primeiro foi vinte e oito de fevereiro de dois mil e vinte. Depois dois de março de dois mil e vinte. Cheguei ao treze de março de dois mil e vinte (era uma sexta-feira treze). Agora chego a dois de abril de dois mil e vinte. Isso significa mais do que uma quinta-feira, significa que são dezoito dias sem me deslocar, por conta da quarentena, mais do que poucas centenas de metros entre minha casa e o supermercado, minha casa e o hortifruti, minha casa e a farmácia. Algumas centenas de metros que me fazem pensar na ironia que é ter a cabeça ainda presa a uma terra a três mil quilômetros de distância de mim agora.

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Penso em quando descobrimos aquela função do Google de rastrear o caminho que fazemos ao longo dos dias. Viralizou um tutorial de como desligar essa função. Lembro que na época em que descobri já trabalhava em casa. Morava no Alto da Boavista, no Rio de Janeiro, as saídas eram difíceis e penosas, muitos metros de ladeira. Quando abri os caminhos que o Google tinha rastreado ao longo dos meus dias, eram pequenos emaranhados de linhas restritos a menos de 40m² do apartamento em que eu vivia com meu ex-marido. Lembro de ter achado graça daquela espécie de clausura que o Google jogava na minha cara. Segunda-feira eu tinha ficado muito na sala, provavelmente pouco trabalho. Terça-feira desci para ir à padaria, um risco até outra rua lançava minha rotina alterada nesse pequeno mapinha. Quarta-feira tinha ficado no quarto, onde eu trabalhava. Um emaranhadinho de informações inúteis pro Google naquela época, tenho certeza. Agora já não tenho tanta certeza assim. Passo grande parte do meu dia deitada no sofá da sala ao lado da Ana, às vezes lendo, às vezes falando sobre o coronavírus e máscaras caseiras. Agora o emaranhadinho não teria mais graça. Será que o Google ainda me rastreia os passos durante essa quarentena?

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Trabalho em home office há quase sete anos. Desde que a especulação imobiliária do Rio de Janeiro fez o grande favor de não me fazer precisar mais ir todos os dias da semana para a Barra da Tijuca. Há sete anos tento descobrir os segredos que agora pipocam rapidamente pelas redes sociais. Dez dicas para render mais no home office. Calçar ou não sapatos para trabalhar? Como otimizar a rotina da casa trabalhando em home office? Descobri que meu regime precário de freelancer se chama, na verdade, teletrabalho. Penso em um tweet que dizia ter a sensação de que isso nos levava para os anos noventa. Telecurso 2000 e as revistinhas de cursos à distância que chegavam pelos Correios. Há sete anos não descubro como render mais, como me deprimir menos, há sete anos repito que as poucas grandes vantagens de trabalhar em casa são: tomar banho e tirar uma sonequinha no meio do expediente.

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Voltando à minha última viagem, já que é o pouco que tenho organizado no meu celular, uma pastinha “viagem chile“. Decidi viajar em meio a uma crise de ansiedade. Nos últimos meses, eu diria de setembro de 2019 até este fevereiro de 2020, tive sequenciais crises de ansiedade. O peito disparado, dezenas de vezes sentada sozinha no meio da sala da casa nova sem entender o que estava acontecendo. Trabalhar sozinha em casa, home office, a possibilidade de infinitas crises de ansiedade e banhos intermináveis (antes da geosmina, claro). Vezes em que meti meia dúzia de calcinhas na mochila e fui me abrigar no colo da minha mãe, que está sempre a 150km de distância de mim. Foi em meio a uma dessas crises que resolvi refazer uma viagem que tinha feito em 2015, em situação igualmente adversa – o jovem de trinta anos não sabe precisar quando não está em situações adversas, concluo agora. Fui para o sul do Chile em busca de me reconciliar com uma viagem e com uma amiga de adolescência, a Nicole. Explico: não estávamos brigadas, estávamos afastadas pela viagem anterior. Fui para o Sul do Chile olhar pra ela porque essa é uma das maneiras mais sinceras de olhar pra si. Encarar nos olhos uma pessoa que te conhece há (dezenove?) anos e que ainda ri de suas piadas e que ainda vota no mesmo candidato que você e que ainda acha que comer brigadeiro pode salvar uma pessoa. Foi pra isso que fui pra lá. Para reencontrar a sorte de ter alguém que pensava ter deixado para trás injustamente: a pessoa que sou quando estamos juntas.

Não tive crises de ansiedade durante a viagem. Era esse meu grande medo. A imensidão tem a capacidade de nos colocar de volta ao nosso lugar. Agora penso que o ínfimo também.

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Me lembro da Nicole nos idos anos dois mil, pós-bug do milênio – quando acreditávamos estar crescendo sem quem nos parasse – me contando animada sobre sua nova pesquisa feita em um laboratório federal, pesquisadora bolsista. Ela é formada em biologia e tem um jeito de falar do que não enxergamos como poucas vezes vi alguém ter. A Nicole sempre teve uma fé nos microrganismos, penso agora. Ela me contava animada sobre os fitoplânctons, que junto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro, a levariam à Antártida, à África, e a ficar no Sul do Chile, por fim. Nicole me dizia que estava apaixonada e que seguiria estudando pequenas microscópicas algas. Ela tinha uma paixão específica: os cocolitoforídeos. Dizia que queria fazer uma tatuagem, como quem diz que vai tatuar um verso de um poema. A tatuagem não aconteceu, mas em fevereiro, verão em Puerto Varas, vi seu costumeiro olhar de amor às pequenas coisas: as algas em floração sufocando centenas e milhares de salmões nas salmoneras nos lagos do Sul do Chile. Enquanto falávamos da floração de milhões de fitoplânctons tóxicos e microscópicos, ao fundo um dos maiores vulcões dos Andes, o Osorno, em alerta amarelo, preparando uma erupção depois de 150 anos em silêncio. É um assombro como tudo é frágil e o tempo é relativo.

Vulcão Osorno. Acervo pessoal.
Vulcão Osorno. Acervo pessoal.

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“Quando faço essas viagens, penso que levo comigo os olhos da minha família. Me pergunto se eles achavam que eu chegaria tão longe. Se minha mãe quando se casou, aos 19 anos, pensava em ter uma filha que se emocionaria pensando em seu pai no entardecer de outro país”.

Escrevi esse parágrafo no caderninho que a Angélica Freitas me deu ano passado, tem uma capa cheia de tubarões fofinhos, um deles diz “I’m not dangerous”. Talvez seja justamente essa mensagem que tenha me feito escrever no caderno. Nunca fui de ter diários, registrar as coisas. Agora penso na importância disso, de levar comigo um caderno. Penso no quanto reler esse trecho (e a lista de compras que vem logo abaixo) me lança para outro lugar e me faz lembrar que a linearidade é falha.

Então, digo, como quem diz pra si mesma: crianças, peguem seus caderninhos e bebam muita água.

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Esse parágrafo sobre o olhar da minha família foi escrito enquanto eu pegava sol, na golden hour, às 19h40, na praça central de Puerto Varas. Tinha uma bandinha de adolescentes tocando clarinete, um deles tocava um sax barítono. Fazia frio em pleno verão, as pessoas disputando os últimos raios de sol. Pensei que toda praça é a mesma praça e imaginei meu pai sentado em Puerto Varas. Talvez isso nunca aconteça, pensamentos de fim se assomam à nossa cabeça em períodos tão sombrios como este que enfrentamos agora. Talvez isso nunca aconteça, é provável mesmo, mas eu estive lá. Uma espécie de herança ao contrário. Devolvo à minha família o impulso que me deram para sair da minha cidade, um impulso muitas vezes doloroso. Da mesma forma que devolvo minha história escrevendo sobre eles, devolvo esse empurrão olhando lugares em que nunca estaremos juntos fisicamente. Penso no meu pai sentado no banco de praça que temos em nosso quintal, pegando o sol das 17h na Serra, escutando seu rádio à pilha. As heranças familiares também passam pelos lugares em que escolhemos nos sentar. Pelos lugares que escolhemos ir. Pelos lugares aos quais escolhemos voltar.

Enquanto estava em Puerto Varas com a Nicole, nossas mães se encontraram no mercado, em Miguel Pereira. As duas comentaram que estávamos juntas em outro país, sem sequer fazer fronteira com o país onde elas estavam. As duas falaram sobre a felicidade que eu e Nicole sentíamos juntas em um país irmão, mas com outra língua. Pelo telefone, falamos as mesmas coisas para nossas mães. As heranças também passam por aí. As palavras que escolho dizer para minha mãe. As palavras que escolho falar agora para seguir adiante. Para que lado escolho olhar. Quais metros escolho caminhar e ao lado de quem. O que escolho registrar: em meu diário, a lista de compras que fizemos juntas para o meu aniversário, eu e Nicole, durante minha estadia em Puerto Varas. Nossas mães no supermercado, quando ainda era possível se encontrar em supermercados. Agora tenho os poucos metros que escolho caminhar ao lado da Ana até o Guanabara, cuidando de não esbarrar em nada nem em ninguém. São poucos os passos que damos agora, eu sei, mas seguiremos caminhando juntas.

Plaza de Armas. Acervo pessoal.
Plaza de Armas. Acervo pessoal.

* Estela Rosa é poeta e caipira, nascida em Miguel Pereira, região serrana do Rio de Janeiro, em fevereiro de 1986. Atualmente faz mestrado no PPGCL-UFRJ, integrando a coordenação do Laboratório de Teorias e Práticas Feministas do PACC-UFRJ. Autora dos livros Um rojão atado à memória e Miguel (Editora 7 Letras), que foi finalista do Prêmio Rio de Literatura 2018 e esteve entre os três primeiros lugares na categoria poesia do Prêmio Off Flip de Literatura em 2017.